Schiaparelli e Chanel encantam na Semana de Alta-Costura
Uma das datas mais importantes datas do calendário da indústria da moda é a semana de Alta-Costura, onde as maisons que fazem parte do Chambre Syndicale de la Haute Couture apresentam coleções exclusivas belíssimas de peças que são feitas artesanalmente com materiais da mais alta qualidade e que são verdadeiras obras de arte.
Dentre as diversas marcas que desfilam nesta Semana de Moda tão importante, alguns desfiles são muito aguardados, como é o caso dos daSchiaparelli e da Chanel, que são muito aguardados todos os anos por conta de serem referência em Alta-Costura.
Confira abaixo todos os detalhes sobre o desfile de Alta-Costura da Schiaparelli e da Chanel:
Schiaparelli
É possível sentir medo e choque diante da Schiaparelli de Daniel Roseberry e, ao mesmo tempo, ficar maravilhado. O que eram as peças lisas, brilhantes e moldadas ao corpo, lembrando a pele humana? Por que uma das modelos exibia tentáculos negros e inflados que pareciam brotar de seu corpo? Como as couraças no busto das mulheres emitiam um brilho vindo de dentro?
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Essa é a reação de impacto visual que Roseberry claramente buscava com a coleção batizada de The Abyss (O Abismo) — um desfile que explorou tanto o medo, levemente inquietante, do que habita as profundezas do oceano quanto o receio de um futuro não muito distante em que, talvez, os humanos tenham se fundido à inteligência artificial. É o tipo de reação que ele procurava: a tensão surrealista que, em sua visão, Elsa Schiaparelli sempre quis criar. “Foi uma entrega total a um processo criativo desconhecido, inclusive na fase de materialização”, disse ele nos bastidores.

A excelência técnica é fundamental na prática da alta-costura. Há as habilidades de alfaiataria, confecção, costura à mão e bordado que remontam a séculos — e há também as experimentações com novos materiais possibilitadas pelos avanços tecnológicos. Ao buscar um material que lembrasse a pele humana, Roseberry encontrou um “ateliê nos arredores de Paris que produz réplicas fotorrealistas de bebês e crianças pequenas para o cinema”, explicou ele. “Eles são especialistas em silicone, e começamos a trabalhar o material e os objetos a partir dele. Grandes quantidades de silicone líquido são despejadas sobre mesas e, basicamente, o material ganha um aspecto de cetim — um cetim de dupla face.” Em seguida, o material era manipulado para assumir formas curvas, como as de boleros e corsets rígidos, resultando em contornos corporais brilhantes e perfeitamente moldados. Um dos looks transformou uma modelo em um crustáceo de tom pálido — uma ideia que certamente teria agradado à própria Schiaparelli.
No entanto, Roseberry afirmou que queria contrastar essa “alta-costura do futuro” com técnicas tradicionais. Houve horas de trabalho manual em uma explosão rosa de penas aplicadas à mão — talvez remetendo a um ouriço-do-mar —, bem como em um estranho apêndice semelhante a uma concha de abalone fixado na barriga de uma modelo e em delicados microbordados feitos com hortênsias liofilizadas.

Chanel
Matthieu Blazy vê a carreira de Gabrielle Chanel como um conto de fadas — esse foi o tema de seu segundo desfile de alta-costura —, mas talvez isso aconteça porque a trajetória dele também o seja. Desde que chegou à maison, o encanto que Blazy exerce sobre as mulheres despertou nelas uma redescoberta da diversão e do prazer de se vestir. Quase de uma só vez, ele eliminou as complicações, trouxe leveza a tudo e acrescentou toques de fantasia, ao mesmo tempo em que criou peças deliciosamente fáceis e práticas de usar, atendendo a uma grande variedade de mulheres. E isso pareceu uma transformação mágica.
Por natureza, a alta-costura ocupa o patamar mais elitizado e exclusivo da moda. Em muitas maisons, ela é vista como um reino de fantasia, onde a questão de quem realmente usará aquelas roupas no mundo real é deixada de lado. Mas Blazy não quis seguir esse caminho ao falar sobre esta coleção. “Eu me interessei por contos de fadas, mas também por histórias modernas, pela vida das mulheres de hoje. Refleti bastante sobre a alta-costura e, especificamente, sobre o que ela significa para a Chanel. A alta-costura da Chanel não busca aquele efeito de impacto imediato.” Ele acrescentou que o desfile não tinha nada a ver com trajes para tapetes vermelhos. “Adoramos fazer isso também, é claro, mas, durante o processo, cortei tudo o que era opulento demais e focamos realmente nas roupas. Inspirei-me no cotidiano das mulheres.”

O estilista decorou um salão cenográfico no Grand Palais com cipós gigantes e flores surreais — um cenário inspirado tanto na história de “João e o Pé de Feijão” quanto no filme Jumanji, dos anos 1990, e suas cenas de invasão por flores “tóxicas”. O primeiro look da coleção, um conjunto sem mangas com trama transparente em forma de grade, era mantido unido por delicados fios de bordado que lembravam brotos de feijão. Mais tarde, ele chamou a atenção para o fato de que a modelo carregava um pequeno livro encadernado em couro caramelo. Tratava-se de um exemplar antigo e original de contos de fadas que Coco Chanel mantinha em seu apartamento na Rue Cambon. “Acho que ele estava lá esperando que eu o encontrasse”, disse ele, rindo. A moral de “João e o Pé de Feijão” é a história de alguém de origem humilde que chega ao topo (e encontra ouro) graças a um instinto ousado, resiliência e sua própria astúcia. Ele continuou folheando e pensou em se divertir com outras histórias: “Cachinhos Dourados”, “O Gato de Botas”, “O Patinho Feio”. Vestidos eram decorados com gavinhas em espiral e flores em relevo 3D. Borboletas e elementos da natureza apareciam nos sapatos. Um casaco que talvez representasse sua visão de um pintinho também surgiu na coleção.
Mas, seguir temas ao pé da letra é uma armadilha na qual Blazy não caiu. A referência aos três ursos poderia ter sido óbvia, mas a voz de uma mulher falando sobre a rotina monótona de seu dia a dia começou a nos contar outra história. “É uma mulher que trabalha na Bélgica e cria música; ela fala sobre o que chamamos de aventura do cotidiano, coisas da vida real: dobrar camisas, abrir uma gaveta, usar tesouras, buscar as crianças na escola”, disse ele. “Gosto de poder falar sobre como a moda trata sempre de representação e de uma certa ideia do que as mulheres representam. Mas a realidade sempre se impõe, sabe? E a realidade também faz parte dessa vida.”

É por isso que a escolha de modelos de diferentes idades feita por Blazy fez todo o sentido, assim como suas peças de alfaiataria mais simples — o epítome da elegância que a própria Gabrielle Chanel trouxe para a moda. Seus vestidos-casaco, um vestido vermelho de lantejoulas na altura do joelho e um casaco de alfaiataria azul-marinho perfeito remetiam à ideia original de Chanel: a de uma mulher que entra em um ambiente e faz com que todos ao redor pareçam estar vestidos de forma exagerada ou excessivamente montada.













